Antes do Fim do Mundo

E foi assim que o mundo acabou.

 

Era início de noite. Primavera.

Ela estava na varanda da casa, um cômodo espaçoso com vista para as montanhas e vales da região. Ele havia escolhido a casa especialmente para ela, sem escadas, sem qualquer altitude, apenas uma casa térrea, Iluminada e ampla, incrustada na natureza, não muito longe da cidade. Ela sempre teve medo de altura, do tipo de não de subir em qualquer coisa que fosse e a casa foi uma das tantas promessas que ele a fez e que pode cumprir, era por fim um lar seguro e acolhedor.

Era seu aniversário, e ela havia passado o fim de semana com sua mãe, amigos e irmãos,ele havia trabalho e havia programado uma noite especial à ela. Ela amava as artes e podia perder dias com seus desenhos, fotos e pinturas, possuía esse dom natural que poucos tem a sorte de ter; trabalhava com ardor e exigência, cobrava muito de si mesma e sempre buscava sua perfeição. Ele, trabalhador incansável, também amante das artes, mas apenas da visualização delas, não possuía dom algum, mas sempre lutava para ter o que desejava e era um amigo inseparável, poucas vezes teve de abandonar uma amizade, sempre teve afeto pelos outros, amigos e desconhecidos, mas o afeto especial era reservado apenas à sua companheira.

Havia pouco tempo desde que tinha chegada do centro da cidade, sobre sua moto,uma Harley Davidson, ele trouxera um vinho antigo e talvez raro, mas que adorava e valia a pena cada centavo, apenas abrira o vinho em datas especiais e esta era uma delas, na pasta carregava documentos de sua empresa e alguma repercussão impressa de seu livro recém-divulgado, talvez escrever fosse seu melhor dom.

A noite começava a tomar forma, da porta da grande varanda ele a observava, usava um leve vestido azul que acompanhava o desenho de seu corpo, acompanhado por um colar que ele havia lhe dado muitos anos atrás, no começo do namoro;ela sentia a brisa balançar os cabelos caídos sobre os ombros para logo começar a arrumá-lo novamente. Ele jurava poder passar dias apenas admirando sua companheira, e particularmente adorava como estava vestida aquela noite; ainda carregava a jaqueta cinza no braço e a camisa mantinha pendurados os fones de ouvido, que mesmo sem serem usados ainda sintonizava as músicas de sua banda favorita, um grupo alemão que cantava algo sobre os ventos da mudança e seguir seu coração.

Ele a chamou e caminhou para ela, a viu sorrir por entre ombros enquanto o olhar sereno o acompanhava; jogou a jaqueta numa cadeira próxima e a abraçou pelas costas segurando-a pela cintura,trazendo suas costas a seu peito; ela inclinou a cabeça para trás e recebeu um beijo demorado, enquanto ele começava a embalava uma música inexistente mas num ritmo próprio deles, equalizando as horas e os sentimentos, devagar, suave, romântico.

Ela se virou e o abraçou, continuando a dançar na melodia que não podia ser ouvida, apenas sentida pelo coração. Os únicos sons que se ouviram eram os insetos  e da música nos fones de ouvido que ainda pendiam na camisa dele.

‘Finalmente você aprendeu a dançar direito’ ela disse baixinho, ‘Sempre tive uma ótima professora’ ele respondeu, acariciando seu rosto.

Ela apenas sorriu, ainda levando o balanço dos corpos. Ele a beijou mais uma vez e continuou acariciando seu rosto, sua pele morena o encantava, ela havia sido sua fonte de amor, inspiração e também fé desde que se conheceram. Os olhos castanhos de ambos se encontravam e os lábios ensaiavam beijos que se perdiam no ar e nas respirações misturadas, nesses momentos o mundo parecia feito para eles.

Permaneceram dançando e conversando por algum tempo,a lua reinava gloriosa nos céus e as estrelas que a acompanhavam que brilhavam forte. Brilhavam tão forte que dava a impressão de que elas se aproximavam e algumas cruzavam os céus.

A aparição de estrelas cadentes estavam se tornando cada vez mais comum, mas ele não se sentia confortável com isso, embora as achasse lindas, por vezes sentia calafrios, entregou uma taça para sua companheira e se aninhou no colo dos seios, sentados, ficaram vendo o espetáculo nos céus, onde a lua ainda reinava, alta e imponente, sendo testemunha do amor.

O vento soprava forte e uma fina areia surgia  de lugar nenhum, as estrelas brilharam mais forte e cada vez mais estrelas cadentes caiam; e ele percebeu que algo estava errado, se levantou e começou a levá-la  para dentro da casa ela reparou que a alegria dele se tornara seriedade e sabia o que significava.

Sem mais aviso as estrelas caiam mais e mais e cada vez mais perto e a cada estrela caída um brilho imenso cegava a grande distância e quando todas as estrelas começaram a cair e sem ter para onde fugir ele a protegeu sob seus braços a beijou uma última vez. ‘Eu te amo’.

Foi a ultima coisa que ele disse.

E a última coisa que ela escutou.

E o mundo.

 

Se apagou.

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