Sobre Amor e outras drogas

Babel

O silêncio ocupou e permaneceu em Babel, típica cidade do interior de qualquer grande metrópole.

Quase todas são muito iguais, as metrópoles e as cidades do interior.

O silêncio, não.

 

Faz uma semana agora. E ao que todos lembram e as fotos sabem, Babel sempre foi desse jeito, típica, a não ser pelo pequeno morro com a igrejinha de tradição vaticana, fechada para reformas, no topo, ao invés de uma praça com sua igreja na frente, no meio da cidade.

Mas Babel também tinha um velho louco que morava no centro dela, porém ao invés de ser na praça, ele vivia ao lado da fonte com formato de esquadro na entrada do cerro. De qualquer modo, também morava na rua e sumia para ninguém sabe onde quando o Sol ardia demais ou as tempestades apareciam no horizonte.

Tirando esses pequenos detalhes que passam desapercebidos por turistas ou novos moradores, os dias em Babel eram muito comuns com suas vendas de família, artistas reclusos em ateliês bagunçados, pequenas bombonieres e charmosos hotéis e prédios de quatro andares mais antigos que as ruas de asfalto.

E foi de um desses prédios firmes, precisamente o da esquina em frente a fonte, e também da minha televisão, que vi tudo acontecer. A maior parte foi através da janela. Em um cruel tempo real.

 

Ainda hoje, ninguém sabe ainda a causa, as razões ou possui alguma explicação plausível para tudo que aconteceu. Mas talvez, nossa atualidade social tenha se tornado um lugar não tão bom assim de se viver. Ao que parece, em grande parte das pessoas existe um esforço real para ser mostrar bom, consigo e com os outros, nada natural, ao contrário, extremamente artificial e montado para uma exibição calculada e alegórica na vida real e virtual. Por conta disso, os egos cresceram de maneira desenfreada, todos agora tinham sua razão imaculada e perfeita, mesmo em seus grupos totalmente compatíveis, era mais fácil gritar para ganhar que ceder para conversar e resolver seja lá o que fosse. A bondade inerente ainda existe claro, contudo, o ódio ganhou seu espaço, divulgação e valor, transformando seus proferidores e, por consequência outros ao redor, em ilhas isoladas que apenas vivem dividindo o mesmo espaço. Olhando com desconfiança. Se os ímãs, naturalmente repelem seu polo semelhante, a sociedade passou a ser o inverso: aproximava os iguais e afastava com brutalidade o oposto, se tornando uma massa totalmente inútil.

Assim, dia após dia gritos odiosos eram ditos pelas pessoas ditas de bem, sem vergonha ou medo de represália, tomavam ruas, empresas, casas, classes sociais. Essas pessoas, zeladas em suas casas e apartamentos próprios acusavam os mais pobres de vitimismo, insubordinação, preguiça e burrice, de falta de vontade para ser alguém na vida como eles. E o mais intrigante era ver parte dos mais pobres entrarem na mesma sintonia molesta, repetindo as mesmas acusações para os mais pobres que eles.

A cólera doentia e débil dos corações se tornou uma oração silenciosa.

Palavras fúnebres cada vez mais gritadas, escritas, postadas. Era óbvio que algo assim iria se alastrar como o fogo numa floresta seca ou como a primeira paixão correspondida. Rápido e eficaz. Parte do mundo passou a ressoar igual, mesmo que não completamente. Ainda assim, cantavam a crueldade como sua salvadora.

Um dia, de tanto clamar, elas foram ouvidas.

 

Foi precisamente no domingo de Ramos, quando o velho louco, limpo e vestido com roupa clara como nova, andava nervosamente de um lado para o outro pela fonte mal planejada em forma de esquadro, que desde o amanhecer alguns poucos sentiam um cheiro enjoativo no ar de Babel, outros poucos ainda percebiam as flores murchando por toda a manhã. Para menos pessoas ainda, o velho louco dizia para procurarem abrigo seguro e não saírem até o anoitecer. No único momento que se afastou da fonte, sobriamente me ofereceu um pesado livro antigo na saída do mercado, dizendo com um sorriso sereno: “Pegue escritor, preciso que isso esteja em um lugar seguro por hoje. Por favor, não fuja, acompanhe tudo do seu lar e depois, atentamente, escreva o que aconteceu. Precisarei da sua ajuda, escritor. E que tenhamos sorte.”

Por um momento, não parecia mais um homem louco e sem teto, mas sim a confiança de eras caminhando para frente da fonte e do cerro da igreja abandonada.

 

Sem entender muito, voltei para casa e ao meio-dia, o Sol desapareceu.

Em muitas cidades as ruas estavam lotadas pelos oradores do ódio silencioso, que continuaram sua marcha e trataram a escuridão repentina como um eclipse não avisado, já que o jornalismo sempre escondia e mentia sobre tudo quando o assunto não os agradava. A televisão e a internet transmitiam o rito, as veias saltadas nos pescoços e a saliva cuspida a cada palavra de ordem. Da janela, eu podia ver gente nos outros prédios se escondendo embaixo da cama e outras na rua, continuando a vida sem ter ideia do que estava acontecendo, mas sentindo algo de errado.

Logo veio o estrondo. O som de um terremoto acompanhado do desmoronamento de uma pequena montanha percorreu as ruas até dar lugar ao chiado agudo de um animal selvagem sendo libertado de sua jaula e correntes. Um murmurinho na rua apontava para as portas abertas da igreja no alto do morro. Uns diziam que era um “milagre” e se ajoelhavam em clamor, outros assustados ajoelhavam pedindo perdão. E na frente da igreja, surgia a imagem de uma mulher que espiava o mundo. Atrás dela, a sombra enorme de uma criatura mítica.

A mulher caminhou descendo o monte até o portão de ferro da entrada, sempre acompanhada pela visível penumbra de forma grotesca e deformada. Algo definitivamente nunca antes visto, somente imaginado e registrado na literatura, com todo o asco, nojo e contorções que se possa descrever.

 

Abriu e fechou o portão como se saísse da própria casa e ao se deparar com o velho louco, agora vestido com um robe templário tirado de ninguém sabe onde, também, fez uma saudação e disse seriamente “Hoje não lhe direi respeito mago. Hoje, o assunto não é com você, fui chamada e estou atendendo os clamores, permaneça em sua missão enquanto continuo a minha.”. O velho louco pareceu absorver as palavras da mulher e analisar a mancha escura cada momento maior que antes; virou-se pulando para dentro da fonte e empurrando uma das peças de granito milenar, anunciou antes de desaparecer “Não demore. O Sol lhe fez o favor de se esconder. Provavelmente por vergonha, apenas faça o que precisa ser feito e retorne.”. A criatura sombria atrás da mulher pareceu olhar para onde o Sol deveria estar e a mulher, no seu lugar, sorriu perversa ao responder:

“Não irei, mago”

 

No instante seguinte o mundo não seria mais o mesmo, a gravidade tomou um peso desproporcional e derrubou todos no chão, prendendo pessoas e animais. Todos no planeta ficaram presos por um peso invisível que os empurrava para baixo, pressionando os corpos contra o chão e bloqueando ao mínimo as respirações. O processo era replicado por todos os lugares, a televisão mostrava o efeito atingindo as passeatas nas avenidas e orlas das praias e assim, por todos demais lugares apenas uma pessoa milagrosamente aparecia em pé. Como o escolhido para ser representante de Deus por aquelas pessoas, ele se mostrava triunfante, simultaneamente em inúmeros lugares, abrindo os braços para abençoar os seus cordeiros que, satisfeitos, aplaudiriam se pudessem. Mas se pudessem, teriam visto a entidade disfarçada e sua sombra bizarra e deformada que explicava tudo.

Mas para eles, mesmo que pudessem entender, não iriam aceitar, pois, tudo que os importava era a benção do seu salvador.

A unção do homem do ódio.

 

Para completar seu louvor, baixou as mãos, levantando assim um vendaval de poeira negra, mofo e podridão. O vento escuro passeou como um tornado com vontade própria através dos apoiadores, navegou por onde quis, invadiu o que achou relevante e da mesma forma que surgiu, começou a desaparecer, derrubando todos os sinais dos meios de comunicação, antes de sumir por completo.

 

O relógio da parede marcava uma da tarde, o Sol reaparecera como se nunca tivesse saído do seu lugar de esplendor, assim como o velho louco com suas roupas velhas e sujas, na frente da fonte em formato de esquadro e da gravidade normalizada, permitindo que tudo ficasse em seu devido lugar. Tudo parecia normal, exceto pela mulher nua sentada em frente das portas abertas da pequena igreja de tradição vaticana em reforma permanente, existente desde sempre no alto do cerro, e, também pela televisão e internet sem funcionar. E era melhor que não tivessem voltado a funcionar novamente.

Aquilo era real, todo o lixo de bandeiras bicolores, carros abandonados, enfeites de cabelo, armas de fogo com a numeração raspada e cartazes pedindo o fim daquilo que apenas mudou de nome e enaltecendo a sujeira patriota.

Havia apenas o entulho, mais nenhum apoiador.

Todos os adeptos que participaram daquela barulhenta algazarra patrocinada desapareceram instantaneamente. Não apenas das passeatas, mas também das casas, empresas, hospitais, pontes, favelas e qualquer localidade. Qualquer um ligado ao tal líder desapareceu sem rastros ou registro, as gravações das câmeras que faziam a cobertura jornalista não foram capazes de capturar como aquelas simplesmente sumiram no ar e os poucos que sobreviveram naqueles locais diziam que foi melhor assim. Em choque psicológico tentavam explicar o que viram e que aqueles outros jamais voltariam, tendo restado apenas o cheiro de esgoto pairando insistentemente no ar. Nem mesmo poeira existia.

 

Pelo resto do domingo e pelos dias seguintes, quem sobreviveu ao fenômeno tentava entender e explicar o que de fato, havia acontecido. Houve quem dizia que os apoiadores tiveram o que mereciam, outros que não era bem assim, mas que foi bem feito, outros com compaixão real na alma entendiam que eles receberam o que pediam, apenas não foi como imaginaram receber.

A busca por respostas deu lugar a discussão dos dois primeiros grupos sobre quem estava certo e quem tinha razão sobre os desaparecimentos, não demorou para que novas desavenças invadissem as relações de muitos que haviam sobrado na Terra. Assim como também não demorou para a resposta aparecer.

Na quinta-feira um novo estrondo surgiu no céu, em seguida uma nova onda de areia negra varreu as cidades e em seguida, todos aqueles que se sentiam satisfeitos pelo desaparecimento dos chamados Maus, todos aqueles que diziam que eles haviam tido sua lição, também desapareceram, se juntando aos seus desafetos ideológicos. Em todo o planeta, apenas os poucos milhares dobrados pela misericórdia permaneceram. Esses não teciam julgamentos, agradecimentos ou lamentos. De alguma forma, sabiam a razão pela qual tiveram sobrevivido e teriam que fazer valer a nova chance.

 

Assim, fizeram silêncio.

 

 

Em Babel, na hora seguinte a segunda onda, o monstro de sombras apareceu ainda mais tenebroso, retornando da sua missão parecia satisfeito enquanto caminhava reduzindo seu tamanho até tomar a forma de um homem alto, pálido e nu. Parou ao lado do velho louco no lado oposto do esquadro que era uma fonte de mármore e falou com a voz bizarra e forte como um estrondo: “Já terminei mago. Vou retornar ao meu lugar e descansar. Comi demais. Pode voltar ao seu lugar, não irei romper nosso tratado.”. Assim, seguiu pela fonte e através do portão até chegar ao topo do monte, abraçar a mulher que o esperava na frente da porta aberta da igreja de tradição vaticana. Com os corpos se fundindo em uma nojenta transição, a massa disforme entrou e fechou a pesada porta, levando consigo o cheiro de decomposição e toda a maldade do mundo.

 

 

Para Babel sobrou o silêncio que se espalhava, rebatendo pelas paredes e campos do mundo esvaziado. Um novo mundo sem divisões ideológicas e da velha postura de cachorros nervosos, divididos pela segurança de um portão. Os que restaram pareciam ter entendido o recado; sabiam que havia muito para limpar.

E sabiam que haveria muito para melhorar em si e havia um novo mundo para ser criado, baseado no que de fato é bom e correto.

 

Fizeram silêncio para trabalhar e viver sem máscaras.

 

Apenas em silêncio, o divino é falado e entendido.

 


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