Conto Homérico – O Filho de Morfeu

Os humanos possuem alguma coisa em sua essência, que nem mesmo Apolo pode compreender em plenitude. Existe algo que não os deixam desistir em nenhuma situação, seja durante a guerra, ou a paz. Durante muito tempo, os deuses não puderam compreender exatamente o que era e isso os intrigava; por conta disso, os humanos foram testados de várias formas, e nada foi capaz de esclarecer a natureza que os mantêm seguindo em frente, até mesmo através da dor.

Eu fui o responsável por desvendar essa particularidade da essência humana, assim como pela salvação dos deuses do Olimpo. Para isso, eu abri mão da minha imortalidade e dos laços eternos com meu pai, e com outras divindades. Eu aceitei me tornar um mortal, e hoje recebo meu pai apenas durante os sonhos.

Eu sou aquele que um dia foi um deus. Hoje o único mortal com sangue divino.

E sou o filho de Morfeu.

Outrora a criação da humanidade, Morfeu combateu ao lado dos deuses, a guerra contra os titãs, tendo tido como oponente seu maior desafeto, o deus-titã da destruição: Perses. A luta entre os dois foi a mais sangrenta daquela guerra. Morfeu moldava armas a partir do éter, atacando ferozmente, enquanto seu rival defendia, destruindo tudo ao redor. Perses avançava movido pelo ódio e pelo desejo, de tomar o reino dos sonhos para si, como há muito ameaçava e tentara. O deus dos sonhos despertou em ira, ante a ameaça de perder seu reino, e de mãos nuas atacou sem piedade. A batalha seguiu durante anos e a cada golpe feria mais o titã, penetrando mais e mais, ampliando sua vitória, trovões eram ouvidos quando um soco atingia o corpo do titã. A ira demonstrada por Morfeu assustava outros titãs que combatiam Zeus, que, percebendo a distração, disparou um último raio no monte Ótris e decretou sua vitória, enquanto Morfeu permanecia em sua batalha particular sem prestar atençao ao redor.

O corpo do titã já não demonstrava reações, quando Morfeu moldou uma longa espada e a penetrou no peito do mesmo. Nesse momento o deus-titã urrou de dor perante a violência do golpe. Decidido a eliminar qualquer essência de Perses, Morfeu se preparou para um novo golpe, moldando uma longa e pesada espada. Foi então que viu Nyx no campo de batalha, temendo que a ira do deus se transformasse em ódio e o dominasse. A deusa interferiu junto de Hypnos e Thanatos impedindo que Morfeu sofresse do mesmo destino de Perses. Juntos os três deuses aprisionaram e selaram a alma do titã numa ânfora criada pelos deuses da morte e do sono.

Com a derrota na guerra contra os deuses, os titãs foram aprisionados no tártaro e a alma de Perses entregue a Morfeu, como um lembrete para que ele nunca cedesse ao ódio, pois este causaria sua destruição e levaria seu reino às ruínas. Terminada a guerra dos titãs, Morfeu retirou-se para seu reino, passando a vigiar a ânfora de Perses e a assistir os acontecimentos na terra mortal.

Séculos após Atena ter dado o sopro da vida aos homens, Zeus, sabendo que a crença da raça humana fortalecia o reinado dos olimpianos, ofereceu a Morfeu um lugar no Olimpo, de forma que o deus moldador se tornasse um aliado, e não tentasse dominar os humanos. Morfeu, reclinando o lugar no Olimpo aceitou a lealdade dos olimpianos, e sabendo da proibição imposta aos deuses, de não interferir diretamente na vida dos mortais, rogou ao rei dos deuses, que os humanos pudessem visitar seu reino sempre que desejassem, pois seriam livres e não sofreriam as limitações da terra. Zeus então, consultando Hades e Poseidon, permitiu que apenas durante o sono, as almas ligadas pelo fio da vida poderiam entrar no reino de Morfeu e que ao despertar, os humanos recobrariam somente parte das visitas. Deste modo foi concedido que o deus moldador influenciasse como quisesse as visitas, e os deuses poderiam aconselhar e enviar avisos a seus fieis tão somente através de Morfeu, cabendo aos humanos compreender as mensagens. Para os humanos, essas visitas receberam o nome de sonhos. E foi por causa dos sonhos que tudo aconteceu.

Certa vez, a guerra encontrou a cidade de Atenas. A deusa, sabendo do apreço e curiosidade que Morfeu mantinha pelos humanos, ofereceu seu conhecimento sobre eles em troca de apoio. Seu plano era simples, instruir seus cavaleiros através dos sonhos, e assim não quebraria a regra de não interferir diretamente na vida dos homens. Durante as noites seguintes, as almas dos cavaleiros e soldados prostravam-se diante de sua deusa no reino dos sonhos, à frente de todos apenas seu comandante permanecia com seu elmo e recebia instruções específicas em conversas particulares com a deusa. Durante os dias na terra, Morfeu e Atena acompanhavam as batalhas, e viam o comandante da deusa conquistar vitórias e definir batalhas, visivelmente era o melhor no campo de guerra, não emitia ódio por seus inimigos, mas sim compaixão. Era algo que me chamava atenção no exército de Atena, não nutriam ódio nem raiva, apenas combatiam seu combate.

Toda noite, quando as almas visitavam o reino dos sonhos, o comandante, após receber novas instruções de Atena, seguia para o templo de Morfeu em direção a ânfora que aprisionava a alma de Perses e ali esperava em posição de combate. Após a guerra que culminou na vitória de Atenas, a alma do cavaleiro continuava a usar sua armadura indo em direção a ânfora, noite após noite seu ritual continuava, sempre do mesmo modo.

Levado pela dúvida, certa noite segui o cavaleiro dentro do templo de Morfeu. O comandante da tropa de Atena tomava sua posição de defesa a pouca distância da ânfora que aprisionava Perses e costumava esperava até sua alma retornar ao corpo mortal.

– Uma batalha acontecerá em breve, é preciso estar preparado. – Uma suave e doce voz feminina soou do cavaleiro.

– Como pode saber?

– Pois a própria deusa Atena ordenou minha missão. – O cavaleiro permaneceu em sua posição de defesa.

– A alma de Perses está aprisionada. Não vejo o que combater aqui, eu sinto muito.

– Minha luta não é contra Perses e sim contra quem irá tentar libertá-lo. – Disse, retirando o elmo e virando-se para mim. – Atena enviou sua mais pura amazona para encerrar de vez esta guerra inútil.

A beleza da amazona me paralisou por um instante, o suficiente para sua alma retornar ao corpo físico. Noite após noite a alma da amazona continuava sua jornada, eu passei a acompanhá-la no reino dos sonhos e, com a permissão de Morfeu, também durante os dias, mas apenas durante seu sono podíamos conversar; de alguma forma eu sabia que devia estar perto.

Não é à toa ela era a comandante das tropas de Atena. Suas técnicas de combate eram refinadas e ela poderia derrotar facilmente os filhos de Ares em batalha. Quando sua alma ficou presa no reino de Morfeu, com alguma dificuldade a convenci de praticar suas técnicas enquanto sua derradeira missão não acontecia. Por o momento de sua missão chegou.

Um grande tremor atingiu o reino dos sonhos. Todas as almas que ali estavam, despertaram em seus corpos no meio da noite, alguns assustados, outros com medo; do outro lado, apenas uma amazona e um deus continuavam no templo, quando um cavaleiro negro surgiu da entrada e a atacou, um golpe seco e violento rompeu seu fio da vida no mesmo instante do impacto.

Horas antes ela havia me contado a importância de sua missão, se Perses fosse libertado o tártaro também seria e armado pelo ódio que alimentam pelos deuses, venceriam, pois falta algo de humano nos deuses e sem isso não venceriam; ao que me parecia, Atena era a única, a saber, disso e naquele momento eu havia entendido sua missão, dar uma chance aos deuses.

Em um novo ataque, seu golpe quebrou meu escudo e fui jogado para perto da amazona. Seu rosto nao demonstrava dor, mas sua alma começava a desaparecer lentamente e seu corpo inerte seria enterrado e ninguém saberia quem ou o que a matou. Ela faria falta para as pessoas de sua vila. Eles seguiriam em frente após o luto, e honrariam seu nome e suas conquistas, mas nunca mais a veriam. Eu também não.

Com sua alma caída ao meu lado, pude perceber qual o segredo da vida humana. Tudo que eles fazem, tudo pelo que lutam, é movido apenas por um sentimento; esse mesmo sentimento toca os homens na terra de formas distintas, mas causam o mesmo efeito. Eles jamais desistem.

Atena estava certa. Os deuses não o sentiam da mesma forma que os humanos e isso os faria fracassar, pois só há uma coisa que pode derrotar as trevas do ódio e foi à morte dela que me mostrou isso. Quando beijei sua testa e me levantei, o cavaleiro seguia para libertar Perses. Quando o ataquei, as espadas se chocavam e as armaduras lascadas; eu vi Morfeu e Atena com suas armaduras e a alma da amazona inerte no chão do templo. ‘“Só há um modo de derrotar o ódio” e eu não permitiria que sua missão fosse perdida; repetindo a batalha de Morfeu, ataquei o cavaleiro negro de mãos nuas até quase destruir aquela criatura coberta de ódio. O deus dos sonhos se encarregou de bani-lo ao tártaro. A deusa da justiça colocou mais

um selo sobre a ânfora e tudo o que eu sentia eram as sensações do dever cumprido, e uma estranha alegria que nunca tinha sentido.

Pedi à Atena que não deixasse a alma de sua amazona desaparecer. Ofereci o segredo humano descoberto e minha vida imortal para viver com ela, pois de nada valeria viver a eternidade se ela desaparecesse. Ambos os deuses sorriram e vi Hypnos quando a alma dela se desfez.

Acordei em um quarto tomado pela luz da lua. Na porta, pude ver a rainha dos deuses saindo enquanto um cavaleiro de Atena entrava.

– Você demorou. – disse retirando seu elmo

Atena havia concedido meu desejo. A amazona voltara à vida. E era tudo o que eu precisava.

Anos se passaram e, na beira do rio Lete, Morfeu nos ofereceu a água do esquecimento para voltarmos a terra. Olhei para a amazona e tive certeza de algo que já sabia.

Tudo que aconteceu, não era a missão dela.

 

 

Era a minha.

 

 

 

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