Sobre Amor e outras drogas

Holo – Parte II

Ela caminhava calmamente pelas escadas, passando pelos andares superiores em direção ao terraço, mantinha e chamava a atenção com um sorriso de satisfação que preenchia todo o rosto. Ouvia a forte chuva que começara a cair repentinamente do lado de fora, ignorando o breve nascer do céu e mantenho o céu escuro com as nuvens densas e carregadas.

Foi até a beira do terraço, sentindo a água fria lavar o corpo e o mar de sangue que havia se formado na rua abaixo durante a madrugada. O êxtase e a excitação ainda percorriam cada parte do seu corpo, fazendo com sentir-se cada vez mais ativa a cada respiração e arrepio atrasado. O sentimento de estar viva fazia a mente visitar tempos passados e se perder no tempo e em sua história.

Lembrou-se de onde veio e de tudo que aconteceu até aquele momento. Se arrependeu de palavras ditas e se vangloriou de feitos ditos impossíveis; mesmo que por alguns momentos, não tivesse certeza do que ainda era e fora.

Brigando com a tempestade, um novo Sol lutava para nascer no horizonte carregando no vento uma doce brisa vindo de lugar nenhum. Em breve aquelas ruas estariam cobertas de policiais, jornalistas e curiosos. Ela não se importava, havia se alimentado e se divertido, oferendas foram entregues e ela já pulsava como nunca antes.

De fato, havia encontrado um bom lugar para suas caçadas.

Ficou mais um tempo na chuva, entrando em um transe eufórico tão profundo que não percebeu os passos de alguém que havia a seguido. Sequer percebeu que o perseguidor via que a chuva não a tocava e que a tatuagem em seu braço brilhava enquanto sua forma física mudava de tempos em tempos, não ouviu os passos pesados no terraço alagado, não percebeu a respiração assustada do homem já perto dela, não se atentou ao barulho do tambor da arma girando ou do gatilho sendo puxado. Não percebeu nada até sentir uma bala atravessando sua cabeça, o corpo cair na beirada do terraço da casa noturna e ver de relance o atirador fugir correndo em direção à escada, exalando medo e pavor.

A roupa de couro molhada começava a incomodar e a água gelada evaporava na raiva crescente que surgia como há muito tempo ela não havia sentido. Não conseguia acreditar em como o ser humano ainda podia ser tão sujo enquanto uma forte sonolência atingia sua razão e ela começava a deixar o corpo pender no ar para cair livre no chão de concreto.

O Sol enfim vencia as nuvens escuras e cegava a visão já turva. Em um último esforço se jogou do parapeito e não se sentiu planar pesada para um triste impacto. Em uma surpresa cega e atordoada sentiu alguém a segurar pelo braço tatuado e sem brilho, conseguindo ouvir uma única voz antes de fechar os olhos.

“Te achei.”


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