Sobre Amor e outras drogas

Holo – Parte IV

Ela cantava alegremente qualquer coisa sobre o fim dos tempos quando chegou. Da beirada, conseguia ver o impacto causado pela explosão ocorrida no começo da tarde. A enorme e funda cratera era uma réplica perfeita das representações da queda de um meteoro, exceto pelo único detalhe que diferenciava a realidade dos livros de história: no centro do gigantesco buraco, onde antes havia um bairro de classe alta dividido entre construções antigas e prédios comerciais, uma única casa permanecia em pé, apoiada em uma torre de terra.

Observou por mais algum tempo e saltou sobre alguns destroços e pedras que davam segurança para pisar firmemente e formavam uma escada detalhadamente construída na encosta para se parecer ocasional. Começou a descer quando um pássaro planou ao seu lado e foi na direção da casa, onde duas pessoas conversavam como se nada tivesse acontecido.

– Precisava mesmo de tudo isso? – O homem perguntou sentado enquanto carregava uma bandeja com duas xícaras e chá em um bule de porcelana.

– Você deveria agradecer que não acabei com você também – Ela respondeu enquanto secava os cabelos com uma toalha felpuda – Há quanto tempo estou aqui?

– Uns cinco meses. Não foi nada fácil proteger o seu corpo.

– Imagino se tivesse tentado de verdade – Comentou enquanto recebia uma xicara de chá quente.

– Se tivesse tentado de verdade, todo meu plano iria por água abaixo. Você poderia ao menos agradecer por eu não ter deixado que te estuprassem, tirassem fotos e todas essas coisas. Um pouco de consideração não iria te machucar. E além do mais, é só você se concentrar que todas essas marcas de pancada e cortes vão curar em um segundo.

– Não quero. Eu vou atrás do responsável por tudo isso e vou acabar com ele. E você vai me ajudar.

– E se o responsável for eu?

– Eu duvido. Nem em mil séculos sua natureza mudou. E eu não preciso fazer nada para ver isso.

– Nem a sua mudou, Holo. Mesmo assim, ainda me dói o caminho que você escolheu.

– Até onde sei não te devo satisfações.

– Mas deve a si mesma.

– Não começa Max, não depois de tanto tempo.

– Fica quieta. Tem alguém chegando.

– Como você?

– Eu aprendi alguns truques. Agora fica aqui, ainda não faço ideia de quem seja.

– Mas como que alguém vai chegar até aqui tão rápido? Não era para ninguém conseguir chegar até aqui. E não me manda ficar quieta.

– Acho que deixei baterem muito na sua cabeça. Pensa direito, só estamos nós dois aqui.

– E daí?

– Com a explosão que você causou, só tem um jeito de alguém chegar até aqui.

– Sendo um de nós.

– Exato. Consegui rastrear. Me diz que você já recuperou sua força.

– Ainda não, preciso comer alguma coisa, por quê?

– Teria sobrado algum poder da Banshee se você não fosse tão cabeça quente. Bem, se lembra da Senhora dos Pássaros?

– Qual das três? A que não gosta de mim, a que não gosta de você ou…

– A que não gosta de nós dois.

– Jasmine…

– Eu vou até a porta. Eu vou trancar a porta, não sai daqui por nada.

 

O grito de uma águia ecoou nos cômodos com poucos móveis enquanto uma sombra escurecia as janelas. A campainha tocou quase ao mesmo tempo em que a porta se abriu.

Uma garota com quase dezessete anos estava do outro lado, sorridente como uma criança. Assobiou e um pequeno pardal pousou em seu ombro, obediente.

– Oi Max, posso entrar?

– Por favor, só não tenho móveis confortáveis. Na verdade, quase não tenho móveis.

– Sem problemas. O bom é que você está bem não é? Olha só a bagunça que ficou esse bairro. Você deu sorte que nada aconteceu com sua casa, não é?

– Sim, claro. Acho que vou ficar famoso por isso.

– Com certeza, vai ter que dar muitas entrevistas também. Seria bom ter uma jovem bonita te acompanhando. Por isso vim com essa forma, você gostou?

– Jasmine…

– Relaxe um pouco Max. Até parece que está escondendo algo.

– Foi um dia fora do padrão. Só estou um pouco tenso por causa dessa cratera estranha.

– Sei bem como é. Bom, eu posso te ajudar a relaxar um pouco.

– Estou bem, não se preocupe.

– Ora, vamos. Uma casa dessas sempre tem uma banheira.

– Infelizmente não vai servir para muita coisa, a explosão levou embora os canos de água e os cabos de energia elétrica.

– Que pena Max, queria tanto resolver nossas últimas pendências.

– Parece que vou ficar te devendo.

– Parece que sim. Mas foi bom saber que você está bem. E agora sei seu endereço, veja se não some de novo heim.

– Não vou, pretendo ficar aqui por algum tempo.

– Que bom. Mas Max, você pode me responder uma coisa?

– Claro.

– Se teve uma explosão, como que somente a sua casa ficou em pé?

 

Ele fechou os olhos desejando ter prestado mais atenção no jogo em que estava.

– Onde ela está Max?

 

Ele realmente desejou ter prestado mais atenção naquele jogo de palavras e sedução fútil.

– Não me faça contar até três.

– Espera um pouco Jasmine.

– Até mais tarde, querido. Dois e três.

 

O pequeno pardal saltou do ombro da jovem de olhos castanhos e voou para fora, empurrando o dono da casa, cratera adento.


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