Sobre Amor e outras drogas

Katie III

É garota, acho que chegamos bem longe dessa vez, não é mesmo? Sabe, eu ainda tenho aquela louca vontade de te abraçar e te fazer sentir confortável. Estamos velhos, minha adorável estrela, minhas mãos tremem mais do que aquela nossa velha máquina de lavar roupas e a sua mobilidade não é mais a mesma de algum tempo atrás. Envelhecemos. Agora estamos presos nessas camas de hospital esperando a Dama Branca escolher qual de nós vai primeiro.

Estou um tanto saudosista hoje, passei a noite toda relembrando de tudo que vivemos, lembrando de nós. Desde a primeira vez que te nos falamos, passando por tudo mesmo, seus trejeitos depois de uma discussão mais séria, seu olhar profundo que dizia bem mais do que a boca falava. E em como você conseguia quase sempre ter razão em alguns pontos e em como conseguia, ser exigir, fazer com que eu buscasse o melhor de mim.

Me tornei um velho romântico, assim como era quando jovem, cabido às devidas proporções do amadurecimento da vida. Eu ainda olho pra você e consigo ver, com o pouco de visão que me restou, a sua beleza interior, de que eu falo tanto. Eu olho para você e ainda te enxergo ainda te amo. Não vou viver falando sobre nossa história toda, você estava lá e já conversamos muito sobre as coisas boas e as coisas ruins. Todos esses anos foram bem divertidos, aprendemos muito um com o outro afinal de contas. Aprendemos com o tempo também. Acho, acho não, já tenho idade o suficiente para ter certeza sobre isso. Com toda a certeza que tenho, sei que precisávamos um do outro. Em todos os momentos.

Realizamos nossos sonhos individuais e conjuntos, fizemos nossas maluquices, fomos livres, confidentes, amantes, confiáveis, teimosos, pirracentos, idiotas, apaixonados, amigos. Aprendemos a fazer silêncio, a ouvir e também a transar como nenhum jovem imagina. Noites inspiradoras aquelas.

Eu ainda sinto o brilho da sua energia interior.

Ainda hoje eu sinto e fico impressionado em como isso conversa com meu interior.

Acho que nunca te falei, mas depois que te conheci, nunca tive medo do futuro. Com você, era fácil perceber que tudo daria certo, foi como um combustível que eu precisava naquela época, uma vez você me falhou algo do tipo, não venha negar agora.

Sabe, meu bem, muito obrigado por ter ficado e me deixado insistir tanto. Em segurar sua mão e brincar com seu cabelo. Muito obrigado por compartilhar sua vida comigo. Fizemos uma jornada intensa. E como foi bom.

É uma pena que esse monte de remédio que nos dão fazem você ficar apagada tanto tempo. Ainda bem que as enfermeiras já estão acostumadas a ver um velho falar sozinho enquanto segura a mão da esposa dormindo. Eu sei que você ouve então tudo bem, realmente, nunca precisamos de muitas palavras.

Estou ficando com frio.

Ainda preciso terminar aquela música que você pediu, falta tão pouco para você cantá-la.

Foi um enorme prazer fazer parte do seu mundo, quando chegarmos do outro lado, quero continuar compartilhando contigo e quando voltarmos para a Terra, quero te encontrar mais uma vez. E viver juntos mais uma vez.

Foi algo real, pleno, embora eu seja incapaz de descrever. Só sei sentir.

Foi o melhor acaso, e toda outra palavra difícil que demonstre carinho.

Estou com frio, Katie.

Quero te ver brilhar. Quero te ver sorrir, sentir seu cheiro, nomear estrelas. Cantar feito  loucos.

Te amar, verdadeiramente, como você me explicou e eu completei.

Estou com frio. Eu costumava gostar do frio, lembra?

Obrigado por ser minha tentação e minha paz.

É, foi uma jornada e tanto.

Vamos combinar de nos encontramos na próxima estação.

Vai ser fácil nos reconhecermos.

Eu ainda tenho esse jeito estranho de ser, você tem esse brilho imenso.

Vai ser fácil.

Se puder, leva uma blusa, está ficando frio.

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Jornal local 09:32

Faleceram hoje, no hospital de uma pequena cidade próxima a montanha, um casal de idosos. O caso ficou famoso na internet não pelo casal ser famoso em vida, mas sim pelas informações divulgadas pelo hospital: a causa da morte foi considerada por idade, sendo a hora-mortis a mesma para o homem e para a mulher. Uma foto divulgada pelo hospital mostra que os dois morreram abraçados, aparentemente sorrindo, com as mãos unidas pelos dedos mínimos na altura do peito. Mais informações sobre a repercussão deste caso e outras noticias no decorrer de nossa programação.

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Acho que dá pra terminar a música assim mesmo “você é esse brilho imenso”. Por inteiro.


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