Sobre Amor e outras drogas

Katie – V

Eu ficava lá, encostado no batente da porta enquanto ela pintava seus quadros
A concentração dela era algo impressionante
A música estava quase sempre alta enquanto ela pintava
E ela quase nunca ficava sentada ou com uma postura correta, como manda o manual
Ela era mestra em deixar a energia fluir entre ela e a tela branca, cada vez mais colorida
Também era mestra em saber quando eu chegava
Mesmo absorta naquele seu mundo, ela fazia um sinal com a cabeça e um sorriso para si mesma quando eu ficava a observando, por mais que eu tirasse os sapatos (nosso costume ao chegar em casa) e andasse sem barulho dentro de casa (coisa que ela me ensinou) ela percebia quando eu estava indo para a sala Três

Eu gostava dos quadros que ela pintava
Mas confesso que gostava mais de vê-la pintá-los
De todo o movimento que o corpo dela fazia
Das danças desajeitadas dentro e fora do ritmo da música enquanto o pincel deslizava na tela
De perceber a respiração dela quando ficava em pé na frente do quadro
Pensando na pintura ou na cor que iria usar (ou jogar alguma coisa em mim, em provocação)
No olhar fixo, na sobrancelha esquerda levantada
Da pouca roupa
E do cabelo geralmente preso de alguma forma diferente, salpicado com tinta
Eu sempre tive a certeza que estava perto de algum céu nesses dias
E mais perto ainda quando ela me permitia entrar (ou quando eu invadia a saleta sob os protestos dela)

Em geral, ela me deixava entrar quando estava a fim de deixar, quando precisava de alguma coisa ou quando eu levava comida
Bem, quase sempre a última opção
Por vezes, eu colocava uma mesa portátil na porta e ficava escrevendo dali
Quando a música dela me incomodava eu colocava meus fones e tudo bem
Por vezes, também, ela baixava o volume do rádio para não me incomodar e voltava a pintar
Eu só percebia depois, quando saia do meu transe (quase todo escritor tem um, pergunte a algum que você conheça)
Meus melhores textos saíram quando eu estava ali
Uma única vez Katie me confidenciou que os melhores quadros dela também

Nossa casa tinha três cômodos a mais que dividimos da seguinte forma:
A sala Um, ao lado da nossa suíte (sim, tão ao lado que fizemos uma porta para facilitar a ida ao banheiro) e era dividida por nos dois
A sala Dois, um cubículo de quatro metros quadrados, porta a porta com o estúdio da Katie, que eu usava quando precisava escrever sozinho ou ofender a mãe de algum editor pelo telefone (a mesa dobrável ficava lá, quietinha e disponível)
E a sala Três, onde ela pintava. Lembro que o cômodo era da metade do tamanho do nosso quarto e tinha uma grande janela coberta com cortina (a janela do nosso quarto era a sacada, um pouco de extravagancia não faz mal a ninguém)
Quando a lua estava no seu auge, abríamos a cortina do estúdio e deixávamos poucas luzes acessas para que a luz natural preenchesse cada pedaço do lugar
Era calmante e inspirador
Algumas várias vezes acabou se tornando excitante também (quem já viu o corpo da pessoa amada sendo banhado pelo luar vai me entender, sem mais)

Eu ainda lembro do dia em que ela tirou uma foto minha sentado no corredor com minha mesinha articulada (melhor aquisição que já fiz)
Duas fotos na verdade
Uma de dentro do meu quartinho da reclusão, onde dava para ver o suporte da tela ao centro do quarto e a cortina aberta do outro lado
E uma do corredor, enquanto eu observava a janela da sala Três
Katie pintou a cena, adicionando ela a frente da tela
Sempre tive um carinho especial por aquele quadro
E pela bagunça que fizemos depois (nunca deixe cair tinta em um tapete felpudo)
Acho que comemos cachorro quente naquela noite

Eram dias bem divertidos e suficientes
Sempre respeitamos demais o espaço um do outro (muitas vezes você precisa produzir algo sozinho e ter a própria vida é fundamental)
Até hoje, nunca falamos muito da nossa vida para os outros (também brigamos, oras), nem mesmo para nossos melhores amigos
Ninguém precisa saber como vivemos, para valer
Coisa nossa, sempre foi assim
E bem natural até

Eu estou aqui, num sofá bem confortável, pensando nos detalhes dela
Meu melhor amigo está aqui comigo e me lembra que estou prestes a entrar num palco diante de fãs fervorosos querendo ouvir a entrevista e tirar fotos e estou pensando nela
Meu amigo fala que não tenho jeito, fazer o que?
O que muitas pessoas não entendem é que não se trata de estar sempre com a outra pessoa, fisicamente falando
É ótimo estar perto, não serei moralista
Mas quando você atinge um certo nirvana no relacionamento seu conforto físico se torna o outro
É difícil explicar, então considere que tem um ano que não nos vemos realmente (obrigado vídeo chamada por quebrar o galho)
Chame de saudade. Ou venha tomar um chá que tento te explicar esse sentimento (mas esteja com a mente e o coração bem abertos, é algo simples e delicado, mas serei eu explicando, então…)
Um assistente da produção veio me avisar que o painel começa em cinco minutos e é a última chance para ir no banheiro

Com toda certeza que não vou contar essa história durante a entrevista
Quase nunca conto nada nosso para os outros
Hoje deve rolar algumas perguntas repetidas de como fazemos para lidar com a distância e a saudade
Bom, eu sei lá mais. Acho que viramos pessoas maduras que simplesmente confiam um no outro
E desejam o melhor para o outro
Não entendo a razão de dificultar a vida, somos almas simples afinal
Mas não posso esconder a saudade que estou sentindo (um tanto de tesão também)
Katie foi viajar para fazer um curso, ganhou bolsa e tudo mais e vai ficar mais um ano fora
Eu estou em turnê de meu livro novo (sempre acho irônico quando assistentes de produção avisam que é a última chamada para o banheiro, simplesmente não dá para ir nos grandes eventos, aguenta aí bexiga)
Meu produtor diz que está tentando conseguir um desvio na rota para onde Katie está, diz que ainda não conseguiu por causa do fuso horário, paciência
Ao menos consegui uma transmissão ao vivo pela internet, mas o fuso realmente atrapalha, lá é alta madrugada de segunda feira (segunda feira é segunda feira em qualquer lugar do mundo, sacanagem)

Eu sei que vou continuar pensando nela durante a entrevista
Eu sou exagerado, eu sei
Contudo, saiba que ela é uma garota espetacular
E não estou exagerando dessa vez, acredite
Por certa sorte, a turnê acaba quando o curso dela acaba
Não vejo a hora de voltarmos para nossa casa um tanto reclusa (mas a dez minutos do centro)
Acho que vai coincidir com o começo da primavera
Vai dar para cuidar do jardim a tempo
Colocar algum vinho branco para gelar
Tirar o pó da casa e dos quartos
Atualizar decentemente um ao outro por horas a fio comendo chocolate branco
E voltar para nossa rotina humilde e tranquilamente maluca
Onde sempre inventamos alguma coisa para fazer
Algo para brigar (poucas vezes ainda bem, Katie tem um soco forte e certeiro)
Plantar alguma outra árvore na rua
Jogar vídeo game, cantar feito loucos, assar um pudim (tudo bem, dois pudins)
E apenas agradecer
Não foi nada fácil chegar onde chegamos, só nós dois sabemos

A vida simples é muito boa
Diria ideal até
Mas já escrevi demais
O rapaz da produção já começou a acenar desesperado para mim
Então vou ali dar meu máximo para os fãs
Mais tarde volto a pensar em ficar encostado no batente da sala Três
Vendo a Katie desfilar na frente do seu quadro branco


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