Sobre Amor e outras drogas

Katie – VI

O seu prédio era o único na cidade que tinha essa escada de segurança igual aos prédios das séries de Nova York que a gente assistia nos fins de semana de tédio, acho que por isso eu sempre insisti em ficar mais no seu apartamento ao invés de no meu. Nós sentávamos na saída da escada de incêndio para ver o pôr do sol como em toda sexta-feira. E como em toda sexta-feira eu observava vidrado o reflexo da luz do sol nos seus olhos castanhos, tornando-os cor de gengibre doce. Assim, eu ficava olhando para dentro de você naquele silêncio confortável, tendo cada vez mais certeza que você era a pessoa mais inteligente, interessante e sábia que qualquer outra no mundo, e, sabe, nunca estive errado. Eu notava o cheiro suave do seu perfume invadir meus sentidos e me sentia de novo nas colinas dos campos de pinheiros, onde o céu estrelado parecia mostrar a via láctea inteira para quem quisesse estender as mãos. Confesso que poucas vezes observei diretamente o sol dar lugar a lua no céu da cidade antes cinza. Me perder nos seus olhos misteriosos e expressivos valia cada segundo daqueles crepúsculos e o silêncio da cidade vazia era um convite para ficarmos ali, ouvindo a respiração um do outro e, vez ou outra, algum pássaro pousar no corrimão da escada e o gato branco da senhora Madis sair em disparada sabe-se lá de onde para tentar alcançar o que a gente nunca soube se era um pardal de fato, apenas que era rápido em desviar do bichano atrapalhado.

Alguma vez nós fizemos um piquenique naquelas escadas?

Acho que uma vez comemos pizza e tomamos vinho doce.

Na maioria das vezes, quase todas na verdade, eu me ficava absorto em você, no silêncio. Seus detalhes sempre me fascinavam e permanentemente você tinha algo novo a ser descoberto, seja um fio desbotando ou mais um modo de sorrir agradecida pela vida.

Era quando você me fazia voltar para o mundo, deitando a cabeça no meu ombro, me abraçando demoradamente ou me levando para o encaixe do seu peito.

 

Você é um universo inteiro habitando outro.

 

Por alguma razão nós mudamos isso de sexta-feira para quarta quando nos mudamos para o meu apartamento novo, além de que passou a ser na varanda com a nossa própria gata malhada que tem medo do ouriço Bob.

 

Mas sabe de uma coisa, acho que hoje podemos ficar no telhado repetindo tudo isso, como antes de você me pedir em casamento, Katie.

Afinal, amanhã é sábado.

 

E a gente tem a manhã toda para decidir se vai levantar ou não.


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