Sobre Amor e outras drogas

O Banquete

Decidi organizar um banquete para alguns conhecidos de longa data.

Para modificar um pouco o ambiente costumeiro, o encontro da vez foi marcado em uma acrópole, no topo de uma colina íngreme, longe da cidade, mas com diversos cômodos reservados. O suficiente para o número de convidados e seu devido conforto.

Tudo havia sido bem planejado, a grande mesa maciça de madeira antiga remontava os tempos nórdicos, assim como a bebida e comida que estavam sendo preparadas. A decoração era bem simples, sem extravagâncias desnecessárias, apenas lâmpadas fortes espalhadas no teto e velas para iluminar a mesa quando a noite chegasse e a comida fosse servida. Para os mal acostumados com o tipo de ambiente, seria estranho ver que, no lado oposto à grande entrada, onde ficaria o altar de uma deusa, havia um trono onde seria possível ver todo o templo e agir caso fosse necessário, e mais atrás, uma enorme árvore Figueira buscava os céus, misturando sua copa com a luz do dia. Para os já acostumados, o significado estava implícito: uma guerra iria acontecer.

Pouco antes da hora marcada, quando o sol iniciasse seu caminho para o oeste, a primeira convidada surgiu correndo na escadaria da entrada principal do salão. Apressada e esbaforida como sempre, a Impaciência, continuava como eu me lembrava, franzina e tão incomodada que se tremia inteira na ânsia de começar e acabar depressa com aquele compromisso. Logo, desatou a falar enquanto um dos mordomos a encaminhava para seu cômodo reservado.

Pouco depois, era vez de seu primo distante, o Rancor, fazer sua entrada reclamando de casos passados que ninguém no mundo conseguia se recordar mais. A Antipatia chegara logo atrás, julgando tudo ao redor em seu salto agulha e nariz empinado de madame de classe média brasileira. Então chegaram o Desrespeito, obviamente ofendendo quem olhava; a Covardia, reforçando as ofensas e se escondendo quando confrontada; a Verdade-Incorrigível, disfarçada de doce sinceridade absoluta; a Possessão, abraçando baús fechados enquanto rosnava se alguém fizesse menção de chegar perto ou perguntar sobre.

Chegavam um a um, e iam tomando conta do espaço, cada um, entre vários, com seu próprio estilo e forma. O Vício, metamorfo, assumia uma forma e um sentido a cada passo dado; os siameses seletivos, Incredulidade e Indignação, apontavam dedos para tragédias escolhidas; a Ganância carregava fichas de cassino e ações de estatais. A Preguiça se arrastava para chegar; a Desonestidade cantava vantagem por ter seguido um atalho após enganar um camponês; o Preconceito havia humilhado o mesmo camponês e a Inveja, desejou tudo o que ele tinha.

O Apego, doente por natureza, desejava mais e mais ter atenção. O Sadismo tirava sarro por dizer ser dono do Apego. Enquanto a Ironia comentava tudo com seu habitual sarcasmo e a Falsidade pintava seu rosto a todo instante.

E assim, pouco a pouco, todos foram chegando e a lista de convidados sendo preenchida de acordo com o número de convites enviados.

A Ira carregava seu martelo de guerra; o Ciúme stalkeava redes sociais; a Futilidade se exibia nua enquanto a Neurose tentava tampar o corpo exibido com qualquer coisa que estivesse à mão e a Agressividade gritava para o Complexo de Culpa sair logo da frente e empurrava o Autoritarismo que tentava ditar regras de comportamento. A Insatisfação cochichava com a Insegurança que observava a Introversão sozinha em um canto observando a Timidez Excessiva em outro. O Orgulho se vangloriava sob o Pessimismo que olhava para fora a toda hora e a Avareza perguntava para a Cobiça sobre como poderia levar alguma comida embora ao mesmo tempo em que o Desprezo olhava tudo com eterno desdém. O Sol já havia se posto quase por inteiro quando a Bajulação e o Oportunismo iam e vinham ao trono agradecer o convite e elogiar a ideia do banquete.

A hora avançava e a luz do crepúsculo dava o sinal de que em breve a comida seria servida e talvez toda a conversa, gritaria e empurra-empurra teria fim por algum curto tempo. Ao menos até a chegada dos convidados principais, pois nenhum dos outros convidados se oporia a uma ordem deles.

Tão logo o Sol se pôs e as luzes do salão foram totalmente acessas, alguns pequenos tremores começaram a serem sentidos e passos pesados ouvidos. Todos ficaram em silêncio e baixaram as cabeças quando duas enormes sombras tomaram conta da entrada e o ar faltou por alguns segundos. Eles haviam chegado, alguns juram até hoje que os viram de mãos dadas e sorrindo maliciosamente entre si, outros que preferiram se esconder como era possível, mesmo que seja praticamente impossível fugir ou se esconder de um enorme Labrador Negro e um Urso Pardo da mesma altura.

Os convidados de honra, enfim, haviam chegado ao banquete.

O silêncio continuava rei quando a dupla tomou sua forma humana para conseguir entrar na câmara cheia e caminhar para seus quartos reservados.

As refeições foram servidas pontualmente, com todos os comensais servindo-se com fartura e satisfação, comiam e bebiam como se fosse tivessem atravessado um deserto. Gritavam, brigavam, discutiam, comiam, bebiam e bacanavam entre seus similares. O jantar seguiu desta forma até todos se darem por satisfeitos e a comida quase acabar.

Eu observava a todos do meu lugar e sabia que era observado por dois deles, os únicos que se diferenciavam da bagunça formada e até prevista.

É o risco que se corre ao juntar seus demônios no mesmo lugar.

O Labrador Negro, em forma de homem, foi o primeiro a levantar, seguido pela mulher Urso Pardo e todos os outros que começavam a formar uma fila atrás do casal que agora tomava minha própria forma.

Já era dada a hora de acabar com toda aquela encenação.

Levantei do trono e caminhei passando pela Figueira até alcançar o gramado aberto atrás da acrópole. Vestido com uma armadura leve, espada, escudo e lança, esperei o primeiro deles a aparecer: Ira e seu martelo de guerra. Logo depois, o Apego.

Ao cruzar o portão dos fundos do salão, eles assumiram minha forma e lutávamos ou fazíamos acordos assinados com sangue sob o testemunho da Lua prateada. Para a maioria, não havia outra opção a não ser a morte e seu expurgo inevitável, não havia mais condições de clemência.

Todos eram partes negativas de mim, demônios, defeitos, controladores, dependências, falhas, problemas de personalidade, não havia mais tempo de postergar as mudanças que clamavam por espaço e maturidade.

Não havia mais tempo de não ser livre.

A noite foi longa. Um a um teve seu direito ao desafio, luta a luta acontecia, acordo a acordo costurado, matança a matança ocorria. Tudo, sob dois pares de olhares imóveis e sem emoção que me viam cansar a cada desafio encarado e vencido.

Não havia a opção de ser derrotado.

O primeiro passo foi do Cão Negro, logo seguido pelo Urso Pardo. Avançando em suas formas animais, faziam o chão tremer, criando uma imagem de pânico quem não o conhecesse seus verdadeiros nomes, cada vez mais comuns. Até mesmo quem conhecia os nomes, vez ou outra ainda tinha medo.

Não consigo mais lembrar quanto tempo àquela batalha durou.

Cada um luta à sua maneira.

Em alguns momentos, o Cão crescia desproporcionalmente e me prendia embaixo de suas patas, dizendo que eu não deveria mais lutar e que dar um fim a tudo era a melhor saída. Em outros, o Urso gritava que todos os planos cuidadosamente sonhados iriam acabar em falha e que não havia como fazer algo dar certo. E quando acertavam algum golpe juntos, diziam que ninguém iria se lembrar de mim e que tudo era em vão, que outros já haviam tentado de outras formas, falhado igual e que o destino de todos era um só: nunca mais ver o nascer do Sol no horizonte.

E assim, continuam a te ferir até depois dos ossos e além da alma.

E é quando você levanta, quase sem forças, com a visão turva, as mãos trêmulas cobertas de sangue e o corpo repleto de machucados.

É quando você pensa em dar razão ao Cão e ao Urso.

E dando um pequeno passo para trás, você sente uma pequena fagulha. Sente um perfume doce, o vento leve. E enxerga profundamente o que não via antes.

É quando você reaprende a sorrir e avança contra um Cão Negro e um Urso Pardo, que já não são monstruosidades e recuam ante sua determinação.

É quando você acorda aos pés de uma enorme Figueira, dono de si e de seu caminho, sabendo que aprendeu o que precisava e que ainda há muito a aprender, mas é dono de sua mente e coração.

É quando você vence a luta contra você.

E as pétalas das flores dançam com você.


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